Os textos “Pragmatismo e milagres de fé no extremo Ocidente” de Renato da Silveira, “Notícias da Bahia” e “Orixás” ambos de Pierre Verger, dialogam entre si numa costura tênue do tema identidade negra. No mundo contemporâneo, onde a formação identitária encontra-se fragmentada, o encontro das pessoas, classes e minorias com uma identidade na qual possam apoiar-se é fundamental. A primeira idéia proposta por Silveira (1988) é um exemplo real, do que Stuar Hall propõe no livro Identidade Cultural na Pós-Modernidade.
Durante a leitura dos textos é possível verificar a formação das identidades do Brasil, a construção histórica de uma parcela da população – representante de uma maioria quantitativa na Bahia – que luta até hoje por uma sociedade igualitária racialmente. As idéias propostas por Hall situam-se mais firmes no texto escrito por Silveira (1988), isso por que, segundo o autor do “Pragmatismo e milagres de fé no extremo Ocidente”, a identidade negra está em constante transformação e formação, já que a população divide vários espaços sociais.
Com a repressão e o massacre social das ações colonizadoras do país, o negro preservava determinados costumes para sobreviver “dignamente” e servir os opressores. A construção da cidade do “Salvador” foi palco, literalmente, da salvação espiritual de um povo que, apesar dos problemas, ajudou a criar a vida e história da cidade de todos os Santos.
E por falar em Santos, é importante sintonizarmos as idéias propostas por Pierre Verger. A construção do Sincretismo vem sendo desconstruídas por aqueles que estudam e praticam o Candomblé. Discute-se que a co-relação existente dos santos católicos com os orixás é uma analogia proveniente da sobrevivência dos cultos africanos. Por ignorância, o colonizador desconhecia características dos ritos afros, por isso os escravos – que já conheciam o significado da palavra malícia e entendem o céu espiritual de uma maneira diferente dos cristãs – enterravam os seus deuses abaixo da terra e dos santos católicos.
Marginalizados como sempre, os cultos africanos eram realizados em meio a escuridão social. Tudo por debaixo do pano, nesse caso, debaixo da terra. Um povo que foram cruelmente repreendidos por uma razão de pele, o dominante genético passava a ser visto como recessivo socialmente.
Mesmo com tantos problemas, pessoas conseguem descontruir essas idéias. Mãe Stella de Oxóssi do terreiro Ilê Aiyê Opó Ofonjá é umas das representantes religiosas que luta pelo fim do sincretismo religioso. Hoje ela tenta fazer com que as raízes africanas no Brasil sejam respeitadas dentro dos princípios étnicos, religiosos e culturais aos quais foram adaptados. O mesmo acontece no texto de Pierre Verger em que a construção narrativa relata a história do negro no Brasil.
O “Notícias da Bahia” descreve a construção e “evolução” urbana de Salvador através da retrospectiva de um personagem que viveu a boemia da cidade. Por meios das memórias são relatados e reconstruídos fragmentos da história que possibilitam o entendimento dos problemas sociais existentes no Pelourinho, Taboão, Barroquinha, Comércio e região central da cidade.
Os prostíbulos, a criminalidade e os vagabundos são questões que surgiram juntamente com a boemia da cidade. O agrupamento e desenvolvimento urbano da região possibilitaram o acréscimo de problemas sociais existentes até hoje, agravados desde que o centro deixou de ser o conjunto habitacional da elite brasileira. Os problemas aumentaram proporcionalmente, e ficaram ainda priores com o descaso das autoridades brasileiras e da própria.
Os preconceitos raciais, religiosos e econômicos existem de fato por que a cultura de superioridade sobreviveu e foi disseminada pelos colonizadores. Os donos do poder conviveram com o crescimento demográfico de um povo, inicialmente, subordinado. Com o tempo a democracia foi invadindo os espaços políticos e os brancos viam-se obrigados a conquistar a simpatia dos negros, e para isso foram utilizadas determinadas estratégicas, vistas hoje apenas com uma tradição baiana.
As caminhadas políticas realizadas durantes as festas de largo da cidade demonstram a aceitação de um costume da minoria, utilizadas para conquistar os votos dos oprimidos. Durante o jogo político não é preciso só falar bem é necessário agir, pensar, aceitar e discutir o que a minoria debate, por isso as pessoas aceitam dividir os espaços sociais.
Mas foi o desenvolvimento educacional dos negros que ajudaram as pessoas a reconhecerem e aceitarem a negritude. O conhecimento e a reconstrução de uma identidade possibilitou a aceitação da religião, da estética e a conquista dos espaços públicos, reservados anteriormente para os colonizadores.
As cotas e a inserção do negro no livro didático provocam polêmicas sociais, situações que acontecem por que o país ainda é preconceituoso. A sociedade brasileira ainda não reconhece a dívida que tem com aqueles que ajudaram a construir este país, ainda bem que não fomos processados, por que é incalculável a restituição moral que este povo merece.
Jéssica Brandão