Transporte coletivo é uma das maiores necessidades dos centros urbanos e das grandes metrópoles. Advento da construção do sistema capitalista, funciona como veículo de locomoção das cidades, para transportar as pessoas em maiores distâncias e num prazo de tempo menor. Os transportes urbanos, tais como ônibus, vans, metrô, trem, dentre outros, são utilizados pela população como meio de locomoção para o trabalho, a escola e até mesmo para o lazer.
Hoje os transportes públicos da cidade de Salvador vivem numa situação caótica, por não existir uma manunteção adequada. Eles andam sujos, velhos, quebrados, lotados, com uma frota inferior à quantidade de pessoas existentes. Os empresários, pensando somente na questão do lucro, baseados na lei da oferta e procura, diminuem a qualidade do produto vendido e passam a ganhar muito mais.
A questão capitalista faz com que eles quebrem a lei orgânica de Salvador, desrespeitando a população. Segundo o site da CMI Brasil, “o transporte coletivo deverá ter uma tarifa condizente com o poder aquisitivo da população” (art. 238), e “os planos de transporte devem priorizar o atendimento à população de baixa renda” (art. 241, I). Infelizmente, não é isso que acontece: a qualidade dos serviços cai a cada dia, e a exclusão das camadas mais pobres nos serviços públicos aumenta progressivamente, além do desrespeito com a população que tem que usar esse tipo de serviço nas condições que os grandes empresários impõem.
Geralmente, o aumento acontece e nada pode ser feito, simplesmente porque a população necessita deste tipo de serviço. O pior é que os cálculos do aumento são feitos com base na proporção de bancos que existem dentro de um ônibus, isso nos remete a pensar onde é que ficam as pessoas que andam nos ônibus lotados.
O surgimento da consciência política
“Um, dois, três, quatro, cinco, mil ou baixa a tarifa ou paramos o Brasil”. Foi assim que, aos poucos, a massa estudantil engarrafava os pontos centrais da cidade de Salvador, no final do mês de agosto de 2003, quando a capital da Bahia anunciava mais um aumento na passagem dos transportes públicos.
Mostrando como sempre toda a disposição juvenil, os estudantes da Bahia saíam às ruas para reivindicar um beneficio arrancado da população, o direito de ir e vir parecia que seria abolido da constituição brasileira de 1988.
Nada parecido com o movimento das Diretas Já, nem com os Caras Pintadas que defendiam respectivamente, o fim da ditadura militar com abertura política do país e o Impeachment de Fernando Collor de Melo. Entretanto, era um movimento forte, consolidado nas bases destes movimentos estudantis, e como tal, unia forças para reivindicar um direito retirado não só dos jovens e das crianças, mas um direito retirado dos seus pais que vivem na miséria de um estado que não lhes dá oportunidade.
“Bloqueavam o direito de ir e vir dos motorizados, para mostrar o que significava o seu próprio direito de ir-e-vir, suspenso com a suspensão da meia-passagem”.
Após esses dois movimentos: Diretas Já e Caras Pintadas, a sociedade brasileira cogitava a idéia de que os jovens estavam desinteressados pela situação política do país. Em uma das suas canções, Renato Russo expressa essa idéia perfeitamente quando afirma que “há tempos são os jovens que adoecem”, entretanto a revolta do buzú vem quebrar este rótulo criado pela sociedade. E eles, mais uma vez, seguem a música do intérprete Zé Ramalho: “Somos todos soldados armados ou não, caminhando e cantando e seguindo a canção”, destruindo com o estereótipo construído pelas estruturas de poder para calar e controlar a sociedade de massa.
“A repercussão destas mobilizações no Brasil deixou nos estudantes a certeza da sua responsabilidade histórica e uma consciência política conquistada na prática, além de, principalmente, a importância das ruas como o cenário natural de protestos”.
A revolta do buzú de 2003 surgiu num estado pobre, marginalizado pelo preconceito de ser uma região nordestina, que não possui condições suficientes para sobreviver. É com essa pauta que surge um “tapete” de estudantes nas principais avenidas de Salvador, engarrafando o trânsito e parando a cidade. Protestando contra o aumento da tarifa dos ônibus e lutando por direitos estudantis dos alunos, que eram negados por uma questão lógica de mercado.
A mesma massa de manipulação criada pelo poder e pelos elementos adventos da indústria cultural, sai às ruas para quebrar a idéia de que os jovens da sociedade brasileira são adolescentes modelados a partir dos vários da novela Malhação, programa exibido na Rede Globo de televisão. É assim que o movimento social quebra este rótulo de alienação abalando totalmente a estrutura de oclocracia, existente no Estado da Bahia liderada na época por Antônio Carlos Magalhães (ACM).
“O homem encontra-se em poder de uma sociedade que é manipulada a seu bel-prazer: o consumidor não é soberano, com a indústria de cultura queria fazer crer, não é o sujeito, mas o seu objeto”. Organização do movimento
A organização deste movimento foi fundamental para o crescimento dos protestos e a simpatia da população. Os pilares das reivindicações se consolidaram pela descentralização de uma liderança fixa, todos os estudantes eram os líderes dessa luta, todos sabiam o que queriam, como queriam e por que queriam. Estudantes de todos os colégios se uniam, sejam eles de escolas públicas ou particulares, juntos num ideal maior de igualdade social.
“Desde o movimento estudantil de 1967-1968, não se via nada igual, em termos de pioneirismo e disposição para ação. Agindo de forma festiva e criativa, livres da tutela da esquerda, aqueles meninos simplesmente pararam a cidade”.
Em meio a milhares de estudantes secundaristas que deram início aos protestos, encontrava-se também os que integravam as entidades estudantis como a União Nacional dos Estudantes (UNE), a Associação Baiana de Estudantes Secundaristas (ABES), a União Baiana de Estudantes Secundaristas (UBES), dentre grêmios, C.As, D.As e D.C.Es, além dos militantes de vários partidos de esquerdas: PCdoB, PT, UJS, PSTU, anarquistas e anarco-punk. Todos estes que integravam a Revolta do Buzú, hoje brigam entre si para receber os créditos de quem iniciou a organização da manifestação, mesmo que, de certo modo, todos tenham colaborado para o processo de reconhecimento do movimento.
A questão da liderança é questionada até hoje em 2007, entretanto os estudantes afirmam e lembram que foi justamente o fator de não existir nenhuma liderança na época que manteve todas as crianças juntas e organizadas, confundindo o governo e dificultando o término dos protestos através da repressão policial. Foi a falta de liderança que manteve o movimento na estrutura definitiva e conhecida pela população. E foi a descentralização dos protestos que confundiu e atrapalhou o trabalho policial. A manifestação não acontece num semáforo, ou numa faixa de trânsito específica, ela aconteceu em diversos pontos estratégicos de Salvador. Iniciou-se, na estação da Lapa, mas seguiu pela Avenida Paralela, Sereia de Itapuã, bairro Costa Azul, dentre outros pontos urbanos onde os estudantes se uniram para engarrafar todo um bairro e assim parar a cidade.
As reivindicações da revolta do Buzú
A primeira revolta do buzú surgiu em função do reajuste que os empresários pretendiam dar no aumento da passagem dos ônibus. O valor da tarifa passaria de R$ 1,30 para R$1,50 em menos de um ano. Em função deste aumento, iniciou-se este movimento estudantil. Durante os protestos, os estudantes acrescentaram outras pautas de reivindicação para lutar, além do congelamento da tarifa durante um ano, entrava em pauta também a extensão de meia-passagem aos estudantes de pós-graduação, mestrado e doutorado, a utilização do cartão de meia-passagem no domingo, feriado e durante o período de férias, o uso do smart-card no transporte complementar, a revitalização do conselho municipal de transporte, a comissão mista de redução da tarifa e a transferência do gerenciamento do smart-card para o poder público.
“Foram atendidas às reivindicações históricas dos estudantes, mas o valor da tarifa (o que levou os estudantes às ruas) não foi modificado”.
As negociações com a prefeitura aconteceram em meio às lideranças estabelecidas por algumas entidades estudantis e representantes do movimento estudantil secundarista. Os alunos entretanto não legitimaram estes representantes durante o movimento e praticamente quebraram laços com tais entidades. O acordo assinado no dia 2 de setembro entre entidades estudantis, e a prefeitura de Imbassahy, foi rompido pela massa estudantil que continuou nas ruas mesmo depois de ganhar os benefícios implantados no novo sistema do smart-card. Assim então começou a história de desmoralização das entidades estudantis, que demonstraram satisfação ao assinar o “acórdão do dia 2”. Eles não imaginavam que não conseguiriam conter o movimento, e que os estudantes secundaristas seguiriam com a luta contra o aumento da tarifa dos transportes públicos, dando continuidade às manifestações, que seriam maiores e mais intensas daí por diante.
“Na assembléia do dia 04 de setembro, uma das cenas mais marcantes, no meio do tumulto da guerra pelo microfone, foi ver um menino que não devia ter entre dez a doze anos gritando: ‘ENQUANTO VOCÊS TÃO AQUI BRIGANDO IMBASSAHY TÁ LÁ FORA AUMENTANDO A PASSAGEM, RUMBORA PRA RUA!!’ Não se sabe ainda qual o efeito da Revolta do Buzú sobre gente tão jovem, mas a experiência de ter quase todo o trânsito da cidade sob seu controle imediato e de reivindicar através de meios radicalizados, tão marcante para estudantes mais velhos, certamente mostrará seus efeitos com o passar dos anos.”
Mesmo após o acordo fechado entre a prefeitura e as entidades, os alunos continuavam nas ruas, mostrando força, vontade e determinação, o que eles queriam eram a redução da tarifa de transporte. Contudo a determinação destes jovens, começou a ser vista com antipatia por parte da população soteropolitana. E essa mudança de lado por parte da população deu crédito ao governo para mandar controlar o movimento, com apoio policial.
Porrada, desrespeito e brutalidade
Depois do acórdão fechado no dia 2 de setembro, os alunos se revoltaram com os “supostos líderes” e, como resposta, continuou com o movimento social organizado. O trânsito continuava parado, os estudantes continuavam a sentar nas faixas logo abaixo dos semáforos, enfim, os protestos continuavam com toda força.
Entretanto, com o acordo assinado e o compromisso estabelecido, a prefeitura tinha agora todo respaldo para controlar a “balbúrdia”. Com argumento feito e o apoio da mídia consolidada, a polícia controlava brutalmente os estudantes. E quebrava, assim, mais dois itens da Constituição de 1988: “ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante” (Art. 5, III), “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” (Art.5, IX).
Os estudantes começavam agora a ser privados das suas atividades intelectuais e artísticas. Para colocar a cidade em ordem, era necessário deter a desordem. A polícia civil e a Choque detiveram o movimento social com toda a força e brutalidade da qual dispunham. Muitos estudantes foram submetidos a tratamento degradante, outros foram detidos para que a manifestação fosse controlada de qualquer maneira. No documentário de Carlos Pronzato, a “Revolta do Buzú”, ele mostra alguns casos de agressão policial que aconteceu nas passeatas. Uma estudante procurando fotografar o momento dos protestos foi submetida à força do cassetete, chutes e arrastão, além de ter tido sua câmara brutalmente confiscada. “É falsa a suposição segundo a qual a tortura é praticada em defesa da sociedade. Ela é instrumento do estado, não da lei. Pertence ao episódio fugaz do poder dos governantes e da noção que eles têm do mundo, e sobretudo de seus povos. Oficiais-generais, ministro e presidentes recorrem à tortura como medida de defesa do Estado enquanto podem se confundir com ele. Valem-se dela, em determinados momentos, contra determinadas ameaças, para atingir objetivos específicos”.
A Revolta do Buzú caminhou por terrenos perigosos. Passeatas à margem do poder, que utilizou a força para controlar crianças que protestavam por um direito que o Estado lhes queria negar.
Mídia e distorção da realidade
“TV Bahia, mentira todo dia, TV Bahia, mentira todo dia”, nestas palavras de ordem dos secundaristas, a cidade mais uma vez ficava atenta para saber o quanto a mídia deturpava as verdades. Durante todos os 10 dias de manifestação, a mídia malmente mostrava as paralisações que aconteciam, salvo exceções do começo dos protestos, do acordo assinado pela prefeitura e do fim do movimento.
“A manifestação começou com pouco mais de 150 alunos e logo ganhou apoio da população”.
Os impressos que eram exceções nesta época: A tarde, Correio da Bahia e Tribuna da Bahia, aumentou seu status refere à audiência e comercialização dos jornais. A emissora de Antônio Carlos Magalhães, TV Bahia, filial da rede Globo manteve a sua postura conservadora como sempre. Os jornais televisivos e de âmbito nacional como: Bom dia Brasil, Jornal Hoje, Jornal Nacional e Jornal da Globo, passavam somente alguns flashes da cobertura, como fez na época das Diretas Já.
Todo esse “jogo” de manipulação é mais um modo usado pela mídia e pela indústria cultural para influenciar e massificar a população. As edições de cada programa são feito explorando as imagens que beneficiam os donos das emissoras, o que é noticiado em uma televisão, no rádio, na internet, nos jornais ou nas revistas sempre passa por uma “censura” prévia, não explicitamente como na Ditadura Militar, mas de uma forma mais sutil e disfarçada.
A apresentação televisiva do movimento estudantil à frente da sociedade, logo após as assinaturas do acordo fechado entre entidades estudantis e a prefeitura, foi de uma imagem de bagunceiros, alunos que não queriam estudar e que causavam baderna no trânsito da cidade. Foi por essa cobertura distorcida dos fatos e pelo longo tempo de protesto que a sociedade começava a desacreditar na Revolta do Buzú.
Adesão do movimento universitário
Os estudantes secundaristas começaram a Revolta do Buzú sozinhos, com a cara e com a coragem, diferentemente dos Caras Pintadas que iniciaram todos os protestos com a adesão do movimento universitário. A manifestação contra o aumento da passagem em Salvador partiu das crianças como foi dito anteriormente, e somente ao final da revolta do buzú a massa dos estudantes universitários aderiu à questão totalmente.
Infelizmente, todas as tentativas para reforçar os protestos foram em vão, os estudantes já haviam perdido a causa depois do acordo fechado com a prefeitura. As manifestações, mesmo que intensas e com a quantidade de alunos envolvidos, não foram o suficiente para reduzir a tarifa de transporte.
Conclusão
A primeira Revolta do Buzú foi um grande passo de mobilização social, que trouxe de volta reconhecimento ao movimento estudantil na Bahia e no Brasil. Depois dos protestos realizados em prol do aumento da tarifa de ônibus, os estudantes do país seguiram exemplo e foram à luta. A Revolta da Catraca, que ocorreu em Florianópolis, foi inspirada nesta manifestação e hoje serve de exemplo para outros protestos que acontecem pelo país.
Os estudantes conseguiram trazer de volta toda a força e coragem que identificava o movimento estudantil. O estereótipo do jovem “Tô nem aí”, massificado com a música da cantora Luka ficou para trás. Mesmo que a passagem não tenha sido reduzida, os estudantes de Salvador lembraram mais uma vez de falar de flores, seguindo trechos importantes da música de Zé Ramalho, “aprendendo e ensinando uma nova canção”, e mostrando que, apesar da alienação intelectual acontecer por adventos da indústria cultural, o alunado ainda possui disposição para modelar politicamente a cidade quando é necessário.